• Luiza Frazão

Machado Duplo, o antigo Labrys cretense

Atualizado: Jan 29

LOGOGRAFIA PARA MULHER


Achei curioso ter encontrado em Óbidos o Machado Duplo tão típico da cultura da Deusa cretense. Imagino que não seja nenhum exclusivo local, embora estes tenham inscrito o nome da vila na sua superfície. Aqui, como em outros lugares, ele é considerado uma simples arma de brincar, à venda no comércio local tal como arcos, flechas e espadas de madeira que por norma se oferecem às crianças sobretudo pela feira medieval de Julho...


"O Machado Duplo, ou Labrys (ou Labirys) é um símbolo importante da Deusa Dupla, representando o poder sobrenatural multiplicado por dois, “o poder do dois” (ver Marija Gimbutas, A Linguagem da Deusa). Claramente, as duas lâminas, com a forma de meias-luas, do machado referem-se às fases crescente e minguante, nascimento e morte, e ao ritmo mensal do sangramento alinhado com a renovação permanente do ciclo lunar.


S

ão estes crescentes evocando chifres, colocados de costas um para o outro, que formam o Machado Duplo das antigas culturas da Deusa, criando um dos primeiros e mais duradouros glifos da Deusa Dupla.



Segundo Gimbutas, “O machado duplo da Idade do Bronze era na origem a representação duma Deusa da Morte e Regeneração com forma de ampulheta. Embora os linguistas tendam a achar que não, seguramente que a palavra Labyris tem relação com “lábia”, a qual por sua vez se relaciona graficamente com o conceito de Machado Duplo. Esotericamente, o conceito de Deusa Dupla como está expresso no Machado Duplo pode referir o clítoris e lábia de cada fêmea como o lugar do poder regenerador, lugar da sexualidade feminina multiorgásmica que evidencia a mulher como centro sagrado de todos os rituais devocionais tântricos. No seu livro sobre o papel da mulher nos ritos do Budismo Tântrico tibetano, June Campbell lembra-nos que OM MANI PADME HUM (“salvé, jóia no centro do lótus) é o mantra mais comummente recitado no Tibete. Chamando a atenção para o facto de este mantra ser dirigido a uma divindade feminina, Manipadma, Campbell reconstrói linguisticamente a expressão como sendo uma invocação da “divindade do clítoris-vagina”. Muito antes da invenção do “hieros gamos” (o casamento sagrado da masculino e do feminino), o Machado

Duplo foi um símbolo largamente difundido da qualidade dupla de cada mulher.



Parece que o Machado Duplo seria a representação mais simples do corpo feminino, a ampulheta criada por dois triângulos unidos no centro (a cintura), uma logografia de mulher.


No seu trabalho inicial sobre a deusa, Marija Gimbutas enfatiza a forma de borboleta do machado, insistindo que "o emblema da Grande Deusa na sua origem nada tem a ver com o machado; ele antecede o aparecimento de machados de metal por vários milhares de anos. " Na Idade do Bronze fizeram-se machados na forma de borboleta (lâmina dupla) e, quando a "borboleta se tornou um machado duplo, a imagem da deusa como uma borboleta continuou gravada em machados duplos". A transformação de borboleta em machado é atribuída aos indo-europeus recém-chegados e à importância que eles atribuíram ao machado do seu deus do trovão, Zeus, para o qual este era sagrado, e que acreditavam estar imbuído de poder. No entanto, a borboleta como símbolo central da Deusa regeneradora remonta pelo menos ao sexto milénio a.C., onde ela encarna o princípio da transformação."


in Vicki Noble, The Double Goddess: Women Sharing Power


Imagens


1. Machado de madeira encontrado em Óbidos

2. Complexo do Templo da Deusa de Malia, Creta

3. Machados duplos cerimoniais, Museu Nacional de Arqueologia, Heraclion, Creta

4. Marija Gimbutas, The Language of the Goddess

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