Despedida da Senhora do Verão

20 de Outubro, Tomar

 

Tomar é um dos lugares do nosso território mais profundamente ligados ao antiquíssimo culto da Grande Mãe, em particular nesta altura da Roda do Ano.

Hoje, no século XXI, encontramos a força e a permanência desse culto na continuidade de uma tradição antiquíssima, com as crianças de Tomar a lançarem, a 20 de Outubro, pétalas de rosa vermelhas ao Rio Nabão.

Existem lendas que ainda são marca de um culto antiquíssimo da Deusa relacionado com a dualidade e alternância das estações do ano e da dualidade da própria Deusa, cuja face de Donzela se transforma agora em Anciã do Inverno.

As lendas de Tomar e daquela região, sobre o rapto ou morte de uma Donzela, a jovem Iria, por um pretendente por ela recusado, ecoam os mistérios de Elêusis, na Grécia, e o mítico rapto de Perséfone/Proserpina, nas mitologias grega e romana, respetivamente. Mitos esses que remontam a tempos ainda mais longínquos: ao auge da cultura e espiritualidade da Deusa Mãe, na antiguidade, em que se celebrava a transição das estações do ano, da época de Verão para o tempo da estação fria.

Na verdade, Iria, a Jovem Donzela, tem uma “morte”/abdução muito parecida com as de Perséfone (ou Proserpina) perpetrado por Hades (ou Plutão), representando a descida dela aos domínios do senhor do inframundo – exatamente no mesmo mês de Outubro, mês das celebrações dos mistérios de Elêusis.

Será precisamente a Porta de Hades, nas muralhas do Castelo de Tomar, um dos pontos centrais da nossa visita, e que fará parte do nosso percurso celebrativo por Tomar, nesta Celebração de Despedida da Senhora do Verão.

Os relatos lendários que envolvem Iria (ou Santa Iria, como passou a ser conhecida), relacionam a sua morte à beira do Rio Nabão, em Tomar, e são uma representação da cedência de lugar por parte da Donzela à Deusa Anciã. A primeira “desaparece”, no final do Estio, e é levada pelas águas do Rio Nabão, que banha Tomar, e que podemos interpretar como as águas do Rio da Morte, da Anciã que tudo leva e transmuta.

Da mesma forma, nesta altura do ano, a própria terra, após ter dado frutos e ter sido fonte de alimento e nutrição, recolhe-se, e a Rainha do Verão regressa à terra com o simbolismo do seu desaparecimento, tal como a semente regressa, para aguardar, latente, uma pausa durante o tempo frio, até germinar.

Este é um dos pontos altos da dualidade do Ano da Deusa: acolhemos o Equinócio de Outono e finalizam os dias longos, quentes e solarengos.

Na Despedida da Senhora do Verão, honramos Iria em Tomar, num momento de celebração, de gratidão à Senhora do Verão por todas as bênçãos que recebemos ao longo do ano e, em particular, pela abundância, fertilidade e generosidade da Mãe Terra e dos campos agrícolas, que nos contemplaram com a sua fertilidade e fartura em frutos e cereais, após as primeiras e as segundas colheitas.

A face Donzela da Deusa dupla no nosso território teve em Tomar, tudo o indica, um importante local de culto da Senhora do Verão, e um primitivo templo liderado por antigas sacerdotisas que encarnavam a própria Deusa.

Dizem as lendas da nossa terra que Iria nasceu em Tomar há vários séculos, e que ali morreu, precisamente em 20 de Outubro. E em torno dela começaram a surgir várias histórias de milagres, em particular relacionados com os poderes curativos das águas do Nabão. Daí a Sua forte relação com as águas dos rios, e o Seu culto como Deusa das águas também.

Outro destaque, que reforça a ligação de Iria às águas e a Tomar, é igualmente através do Pego de Iria de Tomar – cisterna com três poços, cujas águas, para a população local, são sanadoras. E era Santa Iria quem estava representada no escudo de Tomar, vista como entidade divina defensora das suas gentes.

Iria parece estar muito ligada à figura divina de Brígida, ou ser mesmo um avatar da própria Grande Deusa Celta, enquanto Senhora da Luz e Deusa Donzela, uma vez que podemos encontrar em ambas elementos comuns de culto e iconográficos, em torno de atributos como a sabedoria, poderes curativos e regenerativos das águas, a pastorícia, a metalurgia, os lanifícios, a agricultura e a fertilidade. De tal modo, que podemos referir-nos a ela, no território português, como Iria-Brígida.

O convite fica lançado para uma bela e emotiva peregrinação a Tomar, no próximo dia 20 de Outubro, para homenagearmos e agradecermos a Iria, a nossa Deusa Donzela, do alto da ponte do Rio Nabão, realizando a nossa oferenda de pétalas de rosa vermelhas às águas – símbolos do sangue feminino e da regeneração, da sagrada vulva enquanto poderoso portal de Vida da Grande Mãe, e das correntes de limpeza e purificação que nos preparam para a nova fase cíclica da Roda do Ano de Cale.

Contamos com a tua presença!

Donativo sugerido: 15 euros

Inscrição necessária em: jardimdashesperidestemplo@gmail.com