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SAMHAIN 

MORTE, TRANSFORMAÇÃO E RENASCIMENTO

O festival do Samhain é celebrado no Hemisfério Norte a 1 de novembro, direção Noroeste. Trata-se do tempo da Deusa Anciã, da Deusa Negra, daquela que traz a Morte, Transformação e Renascimento. Tudo aquilo que a terra produziu já foi colhido e armazenado: os grãos, os frutos, os vegetais. O que resta na natureza, todos os despojos, vão agora ser cortados rente ao chão pela foice da morte da Anciã e sofrer processos de decomposição, de transmutação. As plantas secas, a folhagem e os galhos caídos transformar-se-ão em húmus suculento, enquanto na escuridão do interior da terra as sementes iniciam o processo que culminará na germinação, para que o ciclo da vida recomece, no tempo circular da Deusa. Este é, portanto, o momento do ano em que um ciclo de vida termina e um outro tem início.

Nestes dias que vão ficando progressivamente mais curtos e mais frios, a seiva desce nas plantas, árvores e arbustos vão perdendo a folhagem, os animais procuram lugares mais abrigados para passar o inverno, para hibernar. A vida recolhe-se agora no interior da terra. Também a nós nos apetece ficar mais tempo em casa, criando mais intimidade connosco. O tempo convida-nos a uma maior interiorização, a uma maior conexão com a verdade da nossa alma, a mais profunda e a mais crua. A Deusa convida-nos a libertarmo-nos de tudo aquilo que está a mais na nossa vida, do que é supérfluo, do que já não serve o nosso propósito maior nesta encarnação. Padrões de comportamento nocivos, velhos hábitos, ressentimentos, sentimentos de vitimização, conflitos não resolvidos, apegos que não nos deixam avançar nem vicejar vão tornar-se mais visíveis nesta estação. A Deusa Negra remexe o Seu caldeirão e por isso mesmo este é por vezes o tempo de enfrentarmos grandes desafios, de nos confrontarmos com a nossa parte sombra, que se tornará mais visível, porque possivelmente nos aparecerá projetada em outras pessoas. O convite da Deusa Negra, porém, é para assumirmos a propriedade dessa parte rejeitada da nossa alma, bem como a responsabilidade pela sua cura. O Seu propósito é ajudar-nos a libertarmo-nos da velha forma. Se aceitamos ou não, a escolha é nossa, Ela simplesmente ceifa, corta o que já não serve, de forma implacável, sendo por isso mesmo tão difícil por vezes de entender.

Quando aceitamos fluir com a Vida, com a natureza, quando compreendemos que dela fazemos parte enquanto criações da Deusa, aprendemos também a reconhecer a importância deste momento, a respeitar, a valorizar, a honrar e a celebrar o processo da morte. Sabemos que somos energia eterna, que como dizia Lavoisier, na natureza nada se perde, tudo se transforma, e que por isso também nós estamos envolvidas/os neste ciclo de morte e renascimento. Assim aquelas e aqueles que nos precederam, que continuam a viver noutra dimensão, e a quem naturalmente na nossa cultura recordamos e honramos de forma especial nesta época do ano.

Esta é uma altura do ano em que sentimos tristeza, pelos processos dolorosos que a morte envolve, mas em que também existe lugar para a alegria, a festa, a celebração da Vida e do milagre de estarmos nela.

Neste festival honramos Cale a Anciã, Atégina, Baubo, a Mulher de Branco, a Bruxa, a Hespéride Liberata, a Senhora da Boa Morte, a Senhora do Teixo, a Moura Anciã.

in A Deusa do Jardim das Hespérides, Luiza Frazão, Zéfiro